Levantando os mortos
No fundo da maior caverna submersa do mundo, mergulhando a uma profundidade alcançada por apenas uma pessoa na história do esporte, Dave Shaw achou o corpo de um rapaz desaparecido ali há dez anos. O que aconteceu depois que Shaw prometeu retornar para buscar o cadáver é quase inacreditável - a não ser que você acredite em fantasmas

Dave sentia-se extremamente relaxado varrendo a escuridão com sua poderosa lanterna, divertindo-se com o fato de ser o primeiro humano a observar o lugar. De repente, ele parou. 50 metros à sua esquerda, perfeitamente iluminado através da água cristalina, estava um corpo
DAVE SHAW, UM AUSTRALIANO DE 50 ANOS, ESTAVA EM OUTRO MUNDO, 244 metros abaixo da superfície do poço que é a entrada do Bushman's Hole, uma cavidade nada atraente na remota província de Northern Cape, na África do Sul, e a terceira caverna submersa mais profunda já descoberta pelo homem. Hermeticamente enclausurado em seu drysuit (roupa que isola totalmente o mergulhador da água) de neoprene negro comprimido, Dave carregava nas costas um equipamento com circuito fechado de respiração, de nome rebreather, o qual, diferentemente do tradicional equipamento de circuito aberto usado em mergulhos convencionais, recicla o gás respirado por ele - remove o dióxido de carbono exalado e devolve oxigênio aos pulmões. Dave levava também seis cilindros de gás, distribuídos pelas suas laterais como apêndices mutantes. Na superfície, ele mal poderia se mover dentro dessa roupa. Mas, na água, acompanhando a corda que o guiava da entrada às profundezas da caverna, o mergulhador descia com a mesma graça e leveza que uma água-viva se desloca n'água. Uma criatura negra, com apenas um pedaço do corpo aparecendo através da sua máscara, deslizando para baixo sem soltar uma única bolha que interrompesse o silêncio etéreo local.
Somente dois mergulhadores chegaram a essa profundidade em Bushman's. Um deles, um sul-africano chamado Nuno Gomes, reivindicou o recorde mundial em 1996 quando alcançou o chão, a 282 metros de profundidade, usando um equipamento de circuito aberto. Gomes bateu no fundo e voltou imediatamente. Mas Dave, um piloto da companhia aérea chinesa Cathay Pacific Airways, morador de Hong Kong e um dos mais audaciosos exploradores de cavernas subaquáticas do mundo, não foi tão fundo à toa. Naquele dia, tocou o chão inclinado da caverna um pouco acima do local onde Gomes aterrissou, conectou uma carretilha à corda guia e começou a nadar para baixo. Naquele momento, em outubro do ano passado, pressionado por mais de um bilhão de galões de água, Dave Shaw era o homem mais feliz do planeta.
Não havia tempo a perder. Cada minuto passado no fundo - seu computador de mergulho VR3 (que monitora desde o tempo de descompressão até o tempo de mergulho e é essencial para a segurança do mergulhador) mostrava que ele agora se aproximava dos 270 metros - acrescentaria mais de uma hora de descompressão na subida. Ainda assim, Dave sentia-se extremamente relaxado, varrendo a escuridão com sua poderosa lanterna, divertindo-se com o fato de ser o primeiro humano a observar o lugar. De repente, ele parou. Cinquenta metros à sua esquerda, perfeitamente iluminado através da água cristalina, estava um corpo, virado de costas para ele, com os braços voltados para a superfície. Dave soube naquele instante quem era: Deon Dreyer, um sul-africano de 20 anos que desmaiou durante um mergulho há 10 anos e desapareceu. Desde então, mergulhadores tinham tentado localizá-lo, sem sucesso.
Sem largar a corda, Dave chegou mais perto e pôde verificar que a roupa de mergulho e os equipamentos estavam intactos. Mas, ao dar de cara com a máscara, macabramente ainda no lugar, ele viu que as partes expostas à água - as mãos e a cabeça de Deon - tinham virado esqueleto. Pensando que devia trazer o corpo de volta à superfície, ele passou os braços pelo cadáver e tentou levantá-lo. O corpo não se moveu. Ele tentou mais uma vez, em vão. O tanque de ar e a bateria da luz de Deon pareciam estar presos na lama embaixo dele, e Dave começava a ficar ofegante. O tempo de permanência planejado na profundeza da caverna também já tinha estourado em um minuto. Rapidamente amarrou a corda ao tanque do Deon, para que ele pudesse ser achado novamente, e retornou à corda guia para começar a subida.
Aproximando-se dos 121 metros, depois de quase uma hora de mergulho, Dave encontrou-se com seu amigo Don Shirley, um britânico expatriado de 48 anos que comanda uma escola de mergulho técnico em Badplaas, na África do Sul. Depois de Don checar se Dave estava bem e recolher alguns cilindros de ar comprimido dependurados na corda guia abaixo deles, Dave mostrou-lhe uma slate (pequena prancheta onde o mergulhador faz anotações) em que estava escrito: "270 m, corpo achado". As sobrancelhas de Don se ergueram dentro da máscara e ele se aproximou mais para apertar a mão de seu amigo. Sem precisar perguntar de quem era o corpo - o desaparecimento de Deon era o único registrado ali -, Don deixou Dave, que ainda tinha oito horas e quarenta minutos de descompressão a completar, para trás.
Mergulhador que procura expandir os limites do possível - Dave tinha estabelecido naquele dia um novo recorde num rebreather, além de ter a oportunidade de trazer de volta um garoto morto para seus pais -, ele se preparava para um feito inédito: o resgate mais profundo da história do mergulho. Quando finalmente surgiu das profundezas de Bushman's Hole, com o sol africano quase se pondo, Dave tirou sua máscara e disse: "Quero tirá-lo de lá".

MERGULHADORES DE ÁGUAS PROFUNDAS sempre foram os ases da comunidade do mergulho, extrapolando limites em labirintos dentro de buracos cheios d'água e profundidades absurdas no oceano. São uma pequena fraternidade global - não passam de uma dúzia - e, na história do mergulho recreativo, somente sete pessoas ultrapassaram com sucesso os 250 metros (mais pessoas andaram na Lua, gosta de ressaltar Don Shirley). Desses, três tiveram problemas durante alguma das tentativas (inclusive Nuno Gomes, que ficou preso na lama do fundo de Bushman's Hole durante dois minutos) e dois morreram: o americano Sheck Exley, que se afogou quando mergulhava na maior caverna subaquática do mundo, a Zacatón, no México, com 329 metros de profundidade, em abril de 1994; e o britânico John Bennett, que desapareceu enquanto explorava uma fenda na costa da Coréia do Sul, em março de 2004.
Fora o perigo de ficar preso ou se perder, respirar as misturas dos gases de mergulho - uma combinação de hélio, nitrogênio e oxigênio conhecida como trimix - em pressões extremas debaixo d'água pode te matar de diferentes maneiras. Em profundidade, o oxigênio pode tornar-se tóxico e o nitrogênio agir como um narcótico - quanto mais fundo você for, mais chapado fica. Mergulhadores comparam essa narcose a beber martínis de estômago vazio e, dependendo da mistura usada, abaixo dos 243 metros parece que você tomou cinco na seqüência. O hélio não é diferente. Pode te deixar nervoso e até com convulsões. Mas não é só. Se você não respirar calmamente e profundamente, dióxido de carbono pode ficar armazenado no seu pulmão e isso fará com que desmaie. Se você subir muito rápido sem fazer minuciosamente as paradas de descompressão, todo o nitrogênio e o hélio que foram forçados pela pressão a entrar nos seus tecidos cutâneos podem efervescer em minúsculas bolhas, causando um desconforto extremo conhecido como doença descompressiva, que resulta em dores agudas, paralisia e até em morte. Para expelir os gases do corpo com segurança, exploradores passam horas sentados em lugares estratégicos para períodos de descompressão minunciosamente calculados.
O GRANDE MERGULHO, como começou a ser chamado o resgate de Deon, foi marcado para o começo de janeiro, e uma das maiores dúvidas era o estado do corpo. Experts consultados supunham que o que restava dele deviam ser só os ossos. Dave decidiu que era melhor colocá-lo dentro de um saco para a viagem até a superfície ou haveria o risco de ele se despedaçar. Para deixar tudo preparado, ele desembarcou em Joanesburgo seis dias antes da data marcada. Sua primeira parada foi em Komati Springs, onde praticou colocar um corpo dentro de um saco embaixo da água, com Don Shirley fazendo-se de morto. A 20 metros de profundidade a operação foi bem calma, levando dois minutos apenas. Um dia depois, ele e Don dirigiram até Mount Carmel, próximo ao buraco, onde sete mergulhadores de rebreather sul-africanos, escolhidos a dedo por Don, e uma equipe policial da Cidade do Cabo e Pretória (já que havia um corpo envolvido na história) estavam reunidos. O mergulho seria no sábado seguinte, dia 8 de janeiro, e Dave esperava completá-lo em aproximadamente 12 horas. Ele cairia na água por volta das seis da manhã e os mergulhadores de apoio seguiriam em seguida, em tempos específicos para cada um até uma profundidade predeterminada, para ajudar a trazer o corpo para cima ou achar Dave, caso algo saísse errado. O primeiro mergulhador que cruzaria com ele na subida seria Don, a 220 metros. Dave passaria o saco a ele e, se as coisas dessem certo, Deon estaria na superfície 80 minutos depois de tudo ter começado.
Don fez tudo o que podia para minimizar os riscos. Colocou 35 cilindros de ar comprimido na água - o suficiente para que ele, Dave e até alguns mergulhadores de apoio pudessem sobreviver a uma falha no rebreather; arranjou um sistema de cordas para suspender um mergulhador numa maca pelas rochas do buraco até uma câmara descompressora rebocada pela polícia até ali; e, para casos de emergência, recrutou o médico Jack Meintjies, um especialista em fisiologia do mergulho da Universidade de Stellenbosch, perto da Cidade do Cabo. Do seu lado, Dave chamou o parceiro Gordon Hiles, documentarista sul-africano, para registrar o resgate. Gordon projetou um compartimento para acomodar uma câmera superleve e prendeu-o a um capacete de escalada. Dave experimentou a invenção dentro de uma piscina em Mount Carmel e disse estar confortável com o design e peso. Três dias antes do mergulho, ele desceu com a câmera para uma aclimatização a 152 metros de profundidade. O dispositivo sobreviveu e voltou à superfície em perfeitas condições. Antes do dia D, Don e Dave reuniram toda a equipe para uma última mensagem. "Se Dave e eu não conseguirmos voltar, nós ficamos lá embaixo", disse Don. "É o fim da nossa história. Nós não queremos ser resgatados."

ÀS 4 DA MANHÃ DE SÁBADO, 8 de janeiro, Dave e Don levantaram- se no escuro para se prepararem para o mergulho. Na luz cinza do amanhecer, a dupla dirigiu dez minutos até o buraco, cada um ouvindo seu iPod para relaxar. Na água, eles começaram a espremer-se em seus drysuits. Às 6h13, com a câmera já gravando em cima da sua cabeça, Dave apertou as mãos de Don, disse: "Nos vemos em 20 minutos", e mergulhou nas águas escuras de Bushman's Hole. Alguns minutos depois, Theo e Marie Dreyer, pais de Deon, procuravam um lugar na beira da água. Eles se atrasaram para que Shaw não se sentisse pressionado.
Dave desceu rapidamente, deixando a corda guia escorregar entre seus dedos. Tocou o chão em aproximadamente 11 minutos, um minuto e meio mais rápido do que ele tinha planejado, e imediatamente começou a nadar até onde tinha deixado Deon preso. Assim que avistou o corpo, abriu o saco, ajoelhou-se junto a ele e pôs-se a trabalhar. Dave podia sentir a narcose chutando a porta do seu cérebro. O hélio e o nitrogênio reduzido de seu trimix limitavam o efeito, mas ainda assim era como se ele tivesse entornado cinco martínis de uma só vez. E ele estava a 270 metros de profundidade há apenas um minuto e pouco.
Trinta minutos depois que Dave submergiu, Don recebeu o sinal positivo e despencou até seu ponto de encontro com Dave, a 220 metros. Aproximando-se dos 152 metros, ele olhou para baixo. A água estava tão transparente que ele podia ver a luz de seu amigo quase 121 metros abaixo, onde esperava que ele estivesse, na região da corda guia. Havia apenas um problema: a luz não se movia. Don soube instantaneamente que alguma coisa tinha saído muito errado. Àquela hora, com mais de 20 minutos de mergulho, Dave deveria estar subindo e Don vendo as bolhas dos gases expandidos do rebreather e drysuit, expelidas por Dave. Mas não havia movimento nem bolhas. Apenas uma luz solitária imóvel.
Somente SETE PESSOAS ULTRAPASSARAM com SUCESSO os 250 metros de profundidade (mais pessoas ANDARAM NA LUA, gosta de ressaltar Don Shirley)
NA SUPERFÍCIE, Verna van Schaik, uma sul-africana de 35 anos que comandava a operação, e uma pequena aglomeração de pessoas em volta do buraco não tinham idéia do que se passava lá embaixo. Vinte e nove minutos depois que Dave tinha mergulhado (e seis minutos depois que Don tinha visto que ele não se mexia), os mergulhadores de apoio Dusan Stojakovic, 48, e Mark Andrews, 39, começaram seus mergulhos até o ponto de encontro com Dave, a 150 metros. À medida que a dupla alcançava o alvo, viu que não havia luzes subindo pela corda guia. Eles continuaram com o plano, que era ficar ali de dois a quatro minutos. Acabaram ficando seis e, aí, já era hora de voltar. Antes que começassem a subida, deram mais uma olhada no vazio. Dessa vez viram uma luz, mas era impossível saber de quem era. Andrews pegou uma slate e escreveu: "não detalhado o novo perfil de descompressão dele.
Sozinho novamente, Don continuou sua volta. Conforme se aproximava dos 50 metros, ele começou a sentir-se fraco. Por instinto, resolveu sair de seu rebreather para um equipamento de circuito aberto, "grampeado" à corda guia para emergências. Colocou o regulador na boca e, assim que deu a primeira tragada de ar, a caverna começou a girar ao seu redor. Ele ainda não sabia, mas uma pequena bolha de hélio tinha se instalado em seu ouvido esquerdo, causando uma forte vertigem. Don estava numa máquina de lavar roupa e fora da corda guia. Ele viu uma coisa branca passar por ele, e mais uma vez. Era a corda guia e, sem pensar, esticou seu braço e a agarrou. Foi o que o salvou. Se tivesse vacilado, teria sido tragado pela caverna, se perdido na escuridão.
Assim que a centrífuga deu uma diminuída, ele pôde ler a tela de seu VR3, que marcava que ele estava a 34 metros e indicava que devia estar a 46 metros. Sem pestanejar, ele desceu novamente. Assim que alcançou a profundidade indicada, foi atacado por uma náusea violenta e começou a vomitar. Sentia a ânsia chegando, tirava o regulador da boca para vomitar e voltava a colocá-lo para respirar novamente. Lutando contra a vertigem e a náusea, ele ainda teve força para alcançar os cilindros de gás, também "grampeados" à corda guia.
Vinte minutos depois, Truwin Laas, 31, o segundo mergulhador reserva de Verna, apareceu. Don fez um garrancho em sua slate: "estou passando por maus bocados. tenho vertigem e estou vomitando". Truwin verificou se ele estava respirando o gás certo para aquela profundidade e voltou rapidamente à superfície para atualizar Verna. Sozinho mais uma vez, Don passou a mentalizar todos os passos necessários para a sobrevivência naquele tipo de situação que estava vivendo. Cada tragada de "ar" era um ato consciente de que ia ficando mais difícil à medida que ele se cansava. "Puxa, segura, solta. Vou sobreviver", ele ficava repetindo para si mesmo. Assim que Truwin chegou trazendo notícias, Verna disparou a maratona. Os mergulhadores começaram um revezamento para ajudar Don e o "grampearam" à corda guia, em caso de ele ter uma convulsão ou desmaiar, "desgrampeando- o" apenas para levá-lo de um ponto de descompressão a outro. Cada movimento trazia uma nova rodada de vômitos.
Depois de quase 10 horas na água, Don finalmente alcançou a profundidade de 6 metros. Estava exausto e aproximava-se da hipotermia, mas ficou lá descomprimindo por mais duas horas. O próximo ciclo do inferno era a apenas 3 metros da superfície e ele tinha que se agüentar por mais duas horas e vinte minutos. Assim que chegou a essa profundidade, uma dor aguda atravessou sua perna esquerda, sinal de que a doença descompressiva poderia estar a caminho. Era a hora de arriscar e ele escreveu numa slate: "perna esquerda dói. pode ser falta de uso. câmara de descompressão pronta?". Logo apareceu Sander. "Estou aqui para te levar", escreveu ele. Don havia permanecido dentro de Bushman's Hole por 12 horas e meia. Içado para fora, foi colocado dentro de uma câmara descompressora em 22 minutos.
CADA TRAGADA DE AR era um ato consciente que ia ficando mais difícil à medida que ele se cansava. "PUXA, SEGURA, SOLTA. VOU SOBRE- VIVER", ele ficava repetindo para si mesmo
DON SHIRLEY SOBREVIVEU àquele dia, mas não escapou ileso. Ele saiu da câmara de descompressão em Bushman's, que estava pressurizada para uma profundidade de 30 metros para sugar a bolha de hélio em seu ouvido, depois de sete horas, desorientado e mal parando em pé. Nas duas semanas seguintes, teve que encarar mais dez sessões em câmaras descompressoras, num total de 27 horas de tratamento. Demorou mais de um mês para que ele pudesse pensar com clareza e andar numa rua movimentada sem ter sua percepção e equilíbrio alterados.
Durante o tempo que esteve em recuperação, mergulhadores faziam a faxina do buraco para tirar todos os cilindros deixados pela operação. Peter foi um dos que ficaram para ajudar na empreitada. Um dia, após um dos mergulhos, um dos policiais mergulhadores chegou para ele e disse: "Vimos Deon e Dave presos na caverna a 20 metros de profundidade". Peter mal podia acreditar. Ele descansou um pouco e voltou para a água. Assim que passou pela chaminé, que é a passagem do poção para a caverna, sua lanterna iluminou Dave, flutuando sinistramente à sua direita, com os braços abertos e as costas pressionadas contra o teto da caverna. Amarrada a Dave estava a carretilha que ele tinha prendido a Deon Dreyer, naquele mergulho em outubro do ano passado. Peter chegou à conclusão de que a lanterna de Dave deve ter se prendido à corda guia e, quando esta foi puxada para tirar os cilindros da água, os dois foram trazidos do fundo junto. Conforme Dave subia, os gases em seu corpo, sua roupa e rebreather expandiram- se, fazendo com que subisse e trouxesse Deon com ele.
UMA SEMANA DEPOIS que Dave morreu, Gordon Hiles trouxe o vídeo a uma pousada em Pretória, onde Don estava hospedado para tratar-se no hospital Eugene Marais, e os dois assistiram a ele. Vendo as imagens, é difícil não se perguntar por que Dave não deu meia-volta e abandonou o mergulho. Em outubro, ele retornou à superfície assim que sua respiração começou a ofegar. No vídeo, dá para ver - e escutar - sua respiração arquejar, mesmo com o corpo de Deon solto da lama - por alguma razão que ninguém sabe explicar, o cadáver soltou-se voluntariamente assim que Dave começou a trabalhar nele. Era só puxá-lo, mas Dave respondia somente às pancadas da sua narcose e sua determinação em acabar o trabalho. Depois de cinco minutos e meio no fundo, ele sabia perfeitamente que devia partir, mas não o fez.
O vídeo mostra o chão se movendo embaixo dele, mas seu progresso de repente pára. Sua lanterna errante aparentemente ficou presa à carretilha amarrada ao tanque de Deon. Ele sabe que pegou alguma coisa e se volta desajeitadamente para ver o que é. Sua respiração começa a parecer desesperada. Ele tenta se soltar, mas não consegue. Cada respiro parece agora um gemido. Dave luta para moverse para a frente, só que está preso pelo peso do corpo de Deon. A tesoura continua em suas mãos, mas ele nunca corta nada. O ritmo da sua respiração continua a se acelerar, num som desesperador de se ouvir. Vinte e um minutos na caverna e o som começa a desaparecer. Dave Shaw, com dióxido de carbono saturando seus pulmões, começa a desmaiar. Ele está morrendo. É macabro de assistir. Um minuto depois não há mais movimento.
"Foi uma hiperventilação extrema", diz o doutor Frans Cronje, médico diretor do Divers Alert Network Southern Africa (organização especializada em segurança subaquática), que acompanhava o tratamento de Don e colaborava com a investigação oficial do acidente. "Você não pensa num novo plano quando está lá embaixo. Não funciona", explica Nuno Gomes. "Sua mente fica nebulosa. Não há o que fazer."

Fonte: Terra
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